Chão de Rua (Dir.: Tomás von der Osten)

Por Guilherme Rodrigues

Chão de Rua consegue estabelecer de modo muito eficaz a diferença de personalidade entre seus dois protagonistas, Alberto (Santos Chagas) e Valéria (Ma Ry), meio irmãos maternos. Ele bem mais velho que ela, pedreiro, homem simples e de voz tranquila, é introduzido no meio de seu trabalho, descascando uma parede sem muitos adereços, o único som sendo o de seus instrumentos e sua conversa com outro pedreiro sendo bem direta e simples. Já ela aparece na cacofonia da cidade, com carros passando, e sua fala está mais para um monólogo, já que não vemos quem recebe suas falas.

Por serem tão díspares, o conflito entre os dois logo fica claro: ela quer se aproximar, mas ele não acha uma boa ideia, já que sua mulher não tem muita simpatia por Valéria, mas devido às circunstâncias, permite que ela durma na casa dele por uma noite.

Chão de Rua tem suas tensões narrativas bem evidentes, o comportamento de Valéria, dois irmãos que não se dão bem, e uma esposa que não ficará contente ao descobrir a visita, mas o curta faz nada com essas tramas, pelo contrário, já que busca colocar a narrativa em outros eixos, menos relacionados a essas questões, já nos seus minutos finais.

E assim como seu início, essa virada é bem expressa visualmente, e o curta ganha características mais oníricas, fantasmagóricas, e a conversa de Alberto com a sua esposa é marcada pelas sombras, e as cores não são mais calcadas pelo real que predominava até então, com luzes de postes e afins, mas com tons de verde e vermelho. A situação não pertence somente ao mundo concreto.

Mas isso pouco conversa com o que veio até então, e o resultado é um curta desconjuntado, pois são duas partes que se articulam muito bem de modo isolado, mas que não conversam uma com a outra, já que as questões levantadas pelo seu início não tem muito impacto para a grande “surpresa” final. Chão de Rua parece que foi concebido primariamente pelo seu plot twist, que se torna memorável pelos motivos errados, pois surpreende não pela sua inteligência, mas sim por desconsiderar completamente o que veio antes.

Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s