Carta aberta ao Panorama Internacional Coisa de Cinema

por Laiz Mesquita, Isadora Sampaio, Christina Mariani, Isabel Santos, Lara Bessa, Rayanne Layssa e Raquel Carvalho 

Muito mais que um espaço de exibição, festivais de cinema são importantes ferramentas de legitimação de imagens. Logo, entendemos que esse é um espaço que precisa partilhar de reflexões sociais e política constantemente. Para isso, é preciso pensar a curadoria como o coração dessas reflexões. É fundamental que tenhamos curadoras e curadores dispostos a pleitear contra a hegemonia das imagens e pela formação de outras.

No frágil momento político que vivemos, os aparelhos culturais como o cinema, se tornam espaços de troca e diálogo sobre o nosso tempo. Cinema é ajuntamento. Não podemos esquecer que se o cinema é político ele também faz parte da construção de reparações históricas, isso reflete não apenas nas telas, mas por trás delas também. A engrenagem financeira que faz boa parte dos filmes acontecerem precisa girar para que outras mãos possam ter acesso a editais e financiamentos. O festival de cinema, a curadoria e o júri, são fundamentais para que esse outro movimento possa acontecer.

Nós, do Júri Jovem da Mostra Competitiva Baiana, tivemos grandes dificuldades na escolha dos premiados. Sentimos nas sessões uma carência de narrativas outras, nos esbarramos constantemente com a exploração de imagens a qual quem filmou não pertence ou não demonstrou respeito com o objeto filmado. O que deveria ser algo empoderador, acaba se tornando uma limitação, como se a vida dessas pessoas se resumisse ao sofrimento, tristeza, violência e dificuldades, não havendo respeito ao lugar de fala desses personagens. Passamos também por um filme que usa da misoginia apenas pelo prazer da violência.

É importante haver janelas para o cinema baiano, porém, quais são a imagens desse cinema que valem ser projetados em tela? Nosso Júri é composto apenas por mulheres, negras em sua maioria, com presença LGBT+. Temos total consciência da importância política que isso significa. Também está em nossas mãos trazer provocações para construir um outro cinema que seja engajado e atento aos desejos de mudança de nossa sociedade, é isso que estamos tentando compartilhar com vocês nesta carta aberta. Cinema é construção, resistência, coletividade.

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Imaginação e catarse do eu [“A sombra do pai”, Gabriela Amaral Almeida, SP, 2018]

por Jacqueline Gama de Jesus

Realismo mágico, a narrativa pelo olhar da criança, decadência humana. Tecnicamente impecável quanto aos detalhes da locação e efeitos gráficos, “A sombra do pai” explora uma história de terror humano em que o sobrenatural está constantemente presente diante do cotidiano. Entretanto, até que ponto tudo não se trata de imaginação? A criança “bruxa”, órfã de mãe, aprende com sua tia a conectar-se com o além e reproduz isso para rever a mãe. Sozinha, Dalva, a menina, brinca no quintal, mas tudo ao seu redor é horror, desde o bullying na escola até o seu grão de feijão, que nasce morto.

O pai de Dalva, cada dia mais se torna um homem triste por lidar com o luto da esposa, agravando essa situação ao perder o amigo de trabalho. A ferida nas costas que ele adquire no cenário laboral torna-se uma metáfora de sua decadência. O homem apodrece psicologicamente e fisicamente, tanto que a menina diz à amiga: “meu pai está virando zumbi”. Isso tem uma grande relevância alegórica porque a mente dele está desligada para a filha e para o mundo ao seu redor, piorando ao longo do filme. Além disso esse fato tem relevância narrativa, já que a trama evoca essas figuras sobrenaturais, associando-as tanto ao imaginário da criança quanto ao realismo fantástico. Fatos absurdos, que não seriam possíveis em uma realidade factível estão ocorrendo durante toda a diegese fílmica.

Em meio a esse cenário, a tia de Dalva casa-se com um homem que se mostra completamente alheio ao contexto dessa família, construção de personagem bastante inteligente, pois permite evocar humor e ironia em meio a tragédias cotidianas. Oferecer um “mentex” a uma criança em uma sala de espera de hospital em um momento em que a menina levou o pai à emergência, estando tanto ela quanto a tia tensas, torna-se uma atitude descabida, já que oferecer uma bala é algo corriqueiro exceto em momentos de tristeza. Tampouco não é o que se espera ao reproduzir-se momentos assim em um filme, o que leva a uma quebra cômica de expectativa em uma trama trágica.

A narrativa também se aproxima do filme “Labirinto do Fauno” no que tange aos elementos sobrenaturais e ao protagonismo dessa garota, que em “A sombra do Pai” tem uma presença intempestiva. Ela com muita pouca idade já toma conta desse homem adulto ao mesmo tempo em que a infância é inevitável, principalmente por uma carência de alguém que a cuide. Daí o desejo pelo retorno da mãe morta.

Elementos cotidianos misturados a humor descabido evocam uma atmosfera também vista na série “Bojack Horseman”, em que personalidades distintas provocam um ambiente cômico, mesmo diante da tragédia. Mesmo lidando com o horror, o filme não tende ao choro, mas um riso frágil que segundos depois transforma-se em uma sisudez ou até tristeza. Esta é uma oscilação constante, baseada na quebra de expectativas. A narrativa espanta.

A trama também se aproximada do curta “A Mão que Afaga”, da própria Gabriela Amaral, consistindo em um estilo da diretora. Ali, a mãe, interpretada pela Luciana Paes, mesma atriz que personifica a tia de Dalva em “A Sombra do Pai”, é atendente de telemarketing e sofre com insultos das pessoas ao telefone. Ela cuida sozinha do filho, que se parece muito com Dalva, calado e imerso em seu próprio mundo. Na festa de aniversário apenas uma colega do garoto, acompanhado de sua mãe, aparecem. Entretanto, a mulher aparentemente só quer observar o ambiente e fazer comentários maldosos para a mãe do menino. A colega não parece nem de longe ser amiga da criança.

Uma cena parecida acontece em “A Sombra do Pai”, a qual só os familiares de Dalva estão presentes em sua festa de aniversário, cuja as velas bolo tem o nome da menina escrito errado, o que é simbolicamente triste, já que o aniversário está associado a quem a pessoa é, assim como o nome de quem está aniversariando. Nesse momento, a menina recebe um coelho de brinquedo que dança e acende a luz, porém, os olhos vermelhos piscantes da pelúcia causam um ar macabro ao mesmo tempo que provoca um riso do espectador diante a situação uma vez que esse coelho nada tem a ver com aquele clima triste, que já não é o comum em uma festa de aniversário infantil. Também, no curta, a presença de um homem vestido de urso causa esse estranhamento, sendo a própria fantasia e atitudes da personagem antagônicas com a atmosfera ao redor.

“A sombra do pai” é um alivio ao mesmo tempo que coloca em uma panela de pressão o cotidiano da vida moderna, as subjetividades, o pensar nas relações humanas e no outro. Também é uma quebra de obviedade mundana e um estranhamento do mundo, já que além de instaurar ou transformar a realidade com elementos sobrenaturais, a construção tanto da trama quanto das personagens está longe do imaginário do senso comum, desde a festa de aniversário triste até o São João ultrarromântico. O filme nos coloca diante do tempo, da vida e da imaginação, podendo ser lido tanto quanto uma realidade onírica de “Alice no país das maravilhas” ao mesmo tempo ao estilo do realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez. Fato é que, mesmo diante do cenário cinza e das perdas, ainda existem frestas de luz nesse mundo em que os indivíduos estão sozinhos e tristes. Essa felicidade pode ser encontrada em um universo imaginário. Assitir “A Sombra do Pai” provoca uma explosão de imaginação e catarse do eu.

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O cinema e a narrativa sensacionalista [“Sem descanso”, Bernard Attal, BA, 2018]

por Letícia Batista

Lembro de uma vez, eu tinha uns sete anos de idade, não tinha entendido muito bem, minha mãe recebeu uma ligação e ficou desesperada. Depois dessa ligação ela fez várias seguidas, ligando para a família e dando um jeito de encontrar minha tia no Rio de Janeiro. Bom, o que havia acontecido é que meu primo que morava na favela junto com minha tia, tinha desaparecido sem deixar rastros. Nunca conheci essa parte da família, não sabia a cara da minha tia e nem dos meus primos, mas ouvia muito sobre eles. Ficamos na procura dele por meses, quando tinha se passado um ano havia esperanças, mas já não tínhamos forças de continuar a procura. 14 anos se passaram e nunca houve corpo, não sabemos quem foi o responsável e nem o porquê do desaparecimento.

É interessante perceber como funciona a memória: há coisas que esquecemos por breve momentos, mas se algo nos provoca de forma específica, ela volta como se sempre estivesse ali. Mais interessante ainda é como os filmes provocam isso – em mim, diria que com grande frequência. E desde que assisti o filme “Sem Descanso” no Panorama, algumas memórias não querem mais sair de mim.

O filme começa nos trazendo para uma situação bem específica, a trajetória do pai de Geovane, que teve seu filho assassinado pela polícia. Conseguimos perceber logo de cara que é uma forma bem clássica de uma narrativa documental, onde temos as entrevistas de familiares e pessoas que entendem do assunto. Há partes de uma simulação do que aconteceu, um pouco parecido com aqueles programas tipo “Linha Direta”, nos fazendo entender o quão real aquilo foi.

Já sabemos tudo que precisamos saber sobre o desaparecimento e a morte de Geovane, em imagens de câmeras de segurança que mostram exatamente o momento que ele foi levado. A tristeza de sua mulher já é a nossa tristeza, a angústia do pai por uma justiça também é a nossa. Depois de todo esse entendimento, o filme começa a andar literalmente em círculos. De maneira muito bruta, a narrativa começa a pesar a mão. A frieza com que ele conduz a narrativa força um sentimento que já obtido, mas a ele parece necessário fazer chorar.

Apesar de o filme começar com a história da morte de Geovane, ele muda o caminho para a morte que aconteceu na mesma semana nos Estados Unidos. A morte aconteceu também pela polícia de lá e ainda deixaram o corpo do garoto morto no chão da rua por mais de 4 horas. A história por si só já é dolorosa e não causa raiva, mas novamente o diretor mostra que mais quer mais e mostra o corpo do menino.

Neste ponto se torna visível a falta de sensibilidade na condução da narrativa. Basta ligar a TV e o que mais vemos são corpos negros sendo presos e mortos, às vezes “sem querer”, pela polícia que confundiu um guarda-chuva com um fuzil, outras vezes porque só quiseram matar mesmo. Usar de uma mesma lógica em um documentário cinematográfico, onde há várias formas de contar essa história e ser tão chocante quanto, demonstra falta de sensibilidade com quem assiste, ainda mais se for com pessoas negras, que carregam essa dor o tempo todo.

A intenção de fazer um filme-denúncia é boa, sei disso. Mas quando se é um homem branco a trazer essas narrativas à tona, tem que se pensar no sensível desses corpos que ele, que tem o privilégio da câmera, quer trazer. Discursos sobre a violência podem também ser violentos. Que lugar eles ocupam no cinema, que cada vez mais nos tem mostrado, pelo menos no âmbito de festivais, novas formas narrativas?

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Por que as mães também? [“Mãe?”, Antônio Vitor, BA, 2018 + “Sair do Armário”, Marina Pontes, BA, 2018]

“Sair do Armário”, de Marina Pontes

por Isadora Sampaio

Eu penso todo o tempo que se tivesse nascido muda, ou se tivesse mantido um juramento de silêncio toda minha vida, teria sofrido igual, e igualmente morreria – Audre Lorde.

Desde que nascemos, a sociedade pré-estabelece como devemos agir e com qual sexo devemos nos relacionar. É uma equação fácil, aparentemente. Se você é mulher, logo terá que se relacionar com um homem. Se você é homem, justamente terá que se relacionar com uma mulher. Quando se foge da norma imposta, dentro desta construção social, há um suposto problema. “Problema” este que se torna ainda pior quando suas mães são as primeiras a apontarem o dedo.

Apesar de execuções diferenciadas, dois curtas que estão na Competitiva Baiana do 14º Panorama Internacional Coisa de Cinema, dialogam em suas propostas temáticas. “Mãe?” de Antônio Victor e “Sair do Armário” de Marina Pontes, contam sobre mães que não aceitam a sexualidade de seus filhos.

Em “Mãe?”, o olhar controlador de Rosa perante ao filho Miguel, que desde pequeno parece não se encaixar na ideia determinada do masculino e sua catarse final, que choca ao mostrar até onde uma mãe pode chegar por intolerância e preconceito. Conseguimos seguir pela fácil narrativa e importância do tema, porém, o filme entrega o que vai acontecer o tempo inteiro, exceto no fim, que talvez só seja impactante pela ideia de uma mãe ser a causadora da tragédia, e não pela tensão narrativa.

Em contraponto, o curta metragem “Sair do Armário” opta por uma tela preta com legenda que sublinha diálogos ouvidos entre mãe e filha. Não é preciso saber nomes e muito menos vê-las para entrar no filme. É uma experiência sonora que inspira revolta: uma mãe, consciente de sua homofobia, convicta que não mudará de ideia, e suas perturbantes palavras de desprezo diante de uma filha que já aceita a si mesma e que só busca a aprovação materna.

“Mãe?”, de Antônio Victor

Ambos os curtas trabalham com a sensação de revolta, repugnância, angústia e impunidade. Dentro de uma sociedade homofóbica da aversão irreprimível, do medo, ódio, preconceito, por que mães dariam assentimento as opressões sofridas pelos seus filhos? Por que a figura materna também seria causadoras de mais uma destas opressões? Porventura a escolha destes curtas, mesmo com escolhas discutíveis – como colocar a mulher no papel de opressora – sejam exatamente refletir sobre questões que não fogem do tempo. Entretanto, ainda há outra questão: por que não propor experiências fílmicas esperançosas, diante ao tenebroso momento em que estamos? Já é vasto o número de filmes que propõem finais infelizes aos homossexuais, como se fosse a única alternativa deste corpo social no mundo.

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Chega! [“Boca Suja”, Alexandre Guena, BA, 2018]

por Isadora Sampaio

Até que ponto o cinema pode ser provocação? Começo esta crítica com o incômodo questionamento que ficou em minha cabeça nos últimos dias, logo depois da exibição do curta metragem “Boca Suja”, de Alexandre Guena. “Lambidas, meninas e tretas. Um filme dos sádicos” como é descrito em sua logline, faz jus ao que foi assistido. Porém, acrescentaria também: misógino, desrespeitoso e ridicularizante.

O filme nitidamente põe a figura feminina em um papel de objetificação, bem como erotiza a mulher lésbica. Em uma cena específica, de maior duração do curta, duas meninas saboreiam de forma provocativa uma casquinha de sorvete de baunilha. É evidente o uso de signos na cena, provocando algumas indagações. O sorvete é de fato uma analogia ao pênis? A escolha do sabor de sorvete pode-se dizer que é alusivo ao semen? A duração do plano somado à encenação das meninas foi pensada propositalmente para excitar a que espectador? Para além, temos na cena seguinte as mesmas meninas escovando os dentes com os dedos. Durante a escovação, gestos aludem ao sexo oral.

Outra camada do curta metragem é a sexualização das mulheres. A mulher lésbica é ostensivamente objetificada e fetichizada no cinema. Há inúmeros debates sobre filmes com temática LGBT+ que só estão sendo produzidos para deleite do imaginário masculino. E aqui está mais uma produção para entrar no histórico, sem nenhuma preocupação até de mascarar suas intenções. Infelizmente continua existindo falta de representatividade, real interesse em mostrar a realidade do que é ser lésbica em um mundo homofóbico e suas incríveis singularidades.

Ao longo da exibição do filme foi difícil conter os sentimentos revoltantes e repulsivos. A sessão inclusive contou com abandonos por parte de mulheres que se negaram dar audiência para o que estava sendo mostrado. Afinal, não precisa ser lésbica para sentir-se incomodada com as cenas, basta ser mulher e entender que seu corpo não pode mais ser visto como objeto meramente erotizado diante de uma sociedade machista e misógina.

É revoltante assistir em pleno 2018 corpos femininos sendo retratados de tal maneira por um diretor homem, já que “Boca Suja” é sim um filme de masturbação masculina. Me questiono por que um filme deste caráter foi exibido em um grande e importante festival de cinema. Obviamente o intuito foi gerar provocação e incomodar. Entretanto, não estamos em tempos de aceitar mais isso. Não podemos permitir que corpos femininos continuem sendo colocados no cinema apenas para satisfazer desejos masculinos, ignorando as suas particularidades. Chega! Não vamos permitir! A luta da mulher no cinema e no mundo vai continuar sendo oposição. Vamos continuar resistindo.

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Panorama baiano

“Orin: Música para os Orixás”, de Henrique Duarte

por Raquel Carvalho

As sessões baianas do 14º Panorama Coisa de Cinema formaram um vasto repertório da cultura negra. Em sua maioria, tanto curtas quanto longas-metragens trouxeram a representatividade do povo negro para as telas. Do candomblé a poesia, do afeto a denúncia, o cinema feito na Bahia nos mostrou a diversidade de narrativas e estéticas para falar de uma cultura pouco registrada por conta do seu oprimido passado histórico.

“Orin: Música para Orixás” e “Poesia Azeviche” nos colocaram no universo musical e religioso da cultura negra, trazendo em suas narrativas imagens de arquivo e depoimentos para compor a história. “Bando, um filme de” e “Sarau da Onça” se constroem através de depoimentos e imagens da resistência de um grupo negro que quer apenas fazer arte e ser reconhecido como tal.

As mulheres negras também foram representadas com “Motriz” (filme premiado como melhor curta baiano pelo Júri Jovem), “Náufraga” e “A Caixa de 4 Cômodos”, todos distintos em suas narrativas, pois se “Motriz” constrói uma relação de afeto, “Náufraga” se coloca como uma narrativa de resistência e “A Caixa de 4 Cômodos” representa um compilado de sentimentos gerados após situações de assédio e abusos sofrido por mulheres em seu dia a dia.

Ainda que em ritmo lento, é notório a força que o cinema negro vem ganhando. O festival deste ano é uma estatística deste crescimento e um espaço para realizadores e realizadoras mostrarem que existe um cinema bem produzido, resistente, político e poético feito na Bahia.

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Corpo Político [“The men behind the wall” (Os homens atrás do muro), Ines Moldavsky, Israel, 2017]

por Christina Mariani

No final da década de 50, na França, o etnólogo francês Jean Rouch, inspirado pelo cineasta russo Dziga Vertov, inovou na prática documental ao trazer às telas o chamado Cinema Verdade. Com uma câmera consciente das violações e interferências que causariam na realidade ao ser ligada e apontada, Rouch se tornou um realizador presente, à frente e atrás da câmera, propondo a fazer cinema evidenciando o próprio cinema. Mais de 60 anos depois, em Israel, Ines Moldavski em seu documentário “Os homens atrás do muro” expõe seu corpo nas ruas e para câmera, para fazer do cinema verdade uma contestação política.

Apropriando-se das possibilidades dos encontros através de um aplicativo de relacionamentos, o Tinder, Ines procura e é procurada por homens. Em tempos de relações cada vez mais fluidas e efêmeras, a premissa pode apresentar-se como mais um ensaio sobre as interferências das redes e mídias sociais na construção de relações interpessoais, não fosse Ines morar em Israel, e seus pretendentes, na Cisjordânia. Entre os dois territórios, conflitos históricos e armados que se perduram por décadas.

Entre expedições pelo Tinder, contextualizadas por meio de imagens da tela do computador, conversas gravadas pelo telefone que acompanham imagens de seu deslocamento pelas ruas da cidade e diálogos filmados com homens de diferentes idades, histórias e pensamentos, a diretora reflete com sensibilidade sobre as relações humanas em meio a guerra e o espírito de animosidade que assolam habitantes separados por um grande muro.

Ines é protagonista de seu próprio filme: entra no quadro com suas roupas vermelhas, se posiciona no frente do muro, segura um boom dentre os carros, diz “oi” para a câmera e desafia a lei israelense ao transitar pela Cisjordânia e Gaza, quebrando paradigmas e ultrapassando limites.

Longe de propor finais felizes com mensagens démodés de perseverança, o curta-metragem propõe a reflexão sobre a guerra através de registros singelos que denotam, por vezes, traços de brutalidade, ao passo em que preserva um maior sentimento de alteridade. Conseguir compreender e enxergar o outro a partir de si mesmo deve ser exercício diário. Ines Moldavski é certeira ao construir a partir do seu corpo e de sua câmera um cinema que reverbera potentes discursos políticos.

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