É tempo de novas imagens [“Mãe?”, Antônio Vitor, BA, 2018]

por Rayanne Layssa

A violência que acompanha a imagem de certos sujeitos não é mais eficiente e se esgota na medida em que esses corpos passam a ser ativos no desejo de outra representação. O cinema vivencia um momento histórico de poder criar novas narrativas, mas ainda assim, muitas vezes, acaba por reforçar de maneira infeliz estereótipos de sofrimento e violência que não cabem mais no seu tempo e espaço. É político entender o tempo de nossas imagens. “Mãe?”, curta ficcional do diretor Antonio Vitor, não é capaz de entender seu tempo.

Rosa é uma mãe que cria seu filho sozinha, Miguel, uma criança de longos cabelos aparece na tela posando para uma foto. Ele sorri e põe a mão no rosto, utilizando de gestos que são socialmente associados a fotografias de garotas. Sua mãe interrompe sua pose, numa clara tentativa de encaixá-lo a códigos masculinistas. Miguel não sorri para foto, não parece feliz.

Já nesse primeiro momento o filme expõe um jogo de vontades – por parte de Miguel- e interrupções dessas vontades- por parte de sua mãe-, originando de maneira cansativa uma série de frustrações nas tentativas realização do jovem protagonista. A Miguel parece não haver o direito de gozar de alegrias e desejos.

Em um segundo momento do filme temos os protagonistas mais velhos: Miguel um adolescente, tímido, prestes a entrar na universidade e ansioso para seu primeiro beijo; e Rosa, uma mulher, dura, intransigente e pouco amorosa. Miguel compra escondido um ingresso para uma festa LGBTQ+, enquanto a mãe tenta castrar todas as possibilidades de explorar sua sexualidade. A construção da figura materna e feminina como uma espécie de vilã, colocando sobre ela signos de preconceito e intolerância é equivocada, tornando o discurso genérico e pouco corajoso.

Não existe surpresa alguma no final trágico e infeliz do curta metragem. No País que mais mata LGBTs no mundo, numa sociedade machista, racista e intolerante, ter no cinema mulheres carregando a representação da violência causada a corpos historicamente deixados a margem é não estar atento aos novos desejos de representação. Na verdade, a velhos desejos que só puderam ser expostos agora.

É tempo de novas imagens, de novas histórias. Não há espaço para filmes como “Mãe?” quando conseguimos identificar os verdadeiros vilões e quando transborda a necessidade de outro final que não a tragédia para esses sujeitos. É político permitir a felicidade.

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Mar: arquivo da memória em curta

Guaxuma, de Nara Normande

por Jacqueline Gama de Jesus

Memória, fotografia, misticismo e som como bússola são os ícones que guiam os curtas “Canção de Alice”, “Inconfissões” e “Guaxuma”. O primeiro se mostra uma narrativa de memória ficcional. Em preto e branco, exibe a história de uma senhora idosa a qual é contada através de algumas lembranças de sua vida. O filme quase todo se passa em um apartamento em frente ao mar em que essa mulher idosa estabelece diálogos cotidianos e ao mesmo tempo entrecortados com sua filha. Apesar da performance da atuação em alguns momentos insinuar-se bastante artificiais, a narrativa contém uma potencialidade de se pensar na vida como um devir de tempo e espaço na efemeridade das subjetividades. As lembranças narradas se encontram com a música que a protagonista cantava para a filha e que era cantada por sua mãe. O mesmo acontece com as fotografias, mostradas em zoom, o que põe em questionamento se são dessa mulher jovem ou de sua mãe. Também há uma forte relação mística com o Buda, provavelmente o ícone mostrado diversas vezes e que aparece em várias versões na casa da idosa pretende uma perspectiva da busca pelo nirvana, a eternidade e o paraíso que só ocorrem quando se subverte o tempo. Alcançar a eternização talvez só seja possível através dessa perspectiva geracional, de deixar herdeiros. Somos eternos em lembranças e a vida é o paraíso se nos permitirmos aproveitar toda a sua sensibilidade.

A canção de Alice, de Bárbara Cariry

Nessa perspectiva de memória e quebra de tempo e espaço, imagens anarquívicas, ou seja, sem referencial de exatidão temporal, espacial e de produção também se engendram em “Inconfissões” e “Guaxuma”. Os dois estão em um panorama da inespecificidade de modo documentário / ficcional, por praticar fabulação a partir de arquivos pessoais. O curta “Inconfissões” mostra-se alinhado ao gênero do fotofilme, tanto no sentido de voltar a uma imagem fotográfica quanto ao de criar ou recriar uma perspectiva fílmica utilizando em sua maior parte imagens fotográficas ou registros amadores do cotidiano de um homem, ao qual supõe-se que ele mesmo capturou já que é revelado que essas são imagens de arquivo. O que chama bastante atenção nessa narrativa é a música. Essa é a bússola para entender a trajetória, desde o som do avião quando é exibida uma fotografia de uma viagem até uma música em imagens de um espetáculo que vai ficando abafada quando mudam-se para as dos bastidores.

Inconfissões, de Ana Galizia

O único momento de narração já é no final do curta. Os diálogos são leituras de cartas ou postais que Luís Roberto Galizia trocou com seus amigos entre as décadas de 70 e 80 em que ele, ator de teatro, muda-se do Rio de Janeiro para os E.U.A e depois volta para o Brasil. Entretanto, não existe uma precisão temporal, com exceção da última fotografia.

O filme também aborda a temática do HIV, apesar de não ser o foco principal, a temática fica subentendida através dos relatos e da excessiva exposição de fotografias do órgão sexual masculino assim como da região anal, e de uma fotografia de sexo oral. Uma sequência de rostos masculinos em close deixa subentendido que Galizia teve relações amorosas e/ou sexuais com eles. Apesar de tocar na temática de maneira sutil, focando na história de vida do ator e suas subjetividades, a relação dele com os amigos, um misticismo subentendido, mostrando cartas de tarô, seu cotidiano, relação com o seu quarto e a rotina, ainda assim o filme pode cair em um lugar comum e perigoso ao vincular o HIV com a comunidade LGBT e a uma ideia de promiscuidade. Entretanto, a temática se torna cara para o Brasil já que na contemporaneamente o número de pessoas portadoras do vírus tem aumentado e o preconceito e o medo de descobrir-se soropositivo é fatídico. Porém, a realidade atual é outra, já que existe o controle do vírus proporcionando uma vida normal aos portadores dele, diferentemente do que aconteceu com Galizia, seus amigos e muitos ídolos nacionais dos anos 70 e 80 que não sobreviveram para contar suas histórias.

O curta “Guaxuma” mostra-se inventivo ao misturar artes plásticas, bonecos de marionete, animação e justaposição de fotografias ou filmagens reais com esses objetos criativos de cunho ficcional. A narrativa é a reconstrução da vida de Nayra e sua relação com sua amiga Tayra. As imagens capturam o espectador pela sensibilidade afetiva que se constrói o curta. O som a todo instante é o do mar, ainda que a voz off esteja em cena, a qual afirma uma sensibilidade sensorial diante desse ambiente. A relação da praia que Nayra constrói na infância se estende a cidade, ou seja, os símbolos afetivos continuam na sua vida adulta. A relação de amizades infantis também é posta em questão assim como a relação com a perda, a falta que o outro faz seja pela morte ou pela distância, questões que podem ser abarcadas para um coletivo, uma vez que as relações individuais envolvem idas e vindas de pessoas em um contingente afetivo e social. O filme questiona as mudanças e o processo de amadurecimento, trazendo também uma relação mística, dessa vez com os origamis que tem um simbolismo na cultura japonesa, os quais tornam-se uma metáfora para a cura e a liberdade. Apesar de parecer bastante simples já que as animações aparentam uma artesanalidade, o filme é tão profundo quanto o mar que se expõe.

O mar torna-se uma metáfora de vida nos três curtas, apesar do segundo não haver menção a ele, são narrativas que interpelam o pensar na vida como esse oceano em que os seres humanos são navios de partidas e chegadas. Logo, individualidades e coletivos se constituem em um oceano de tempo e espaço. Apesar da efemeridade do presente continuamos a lembrar do passado e seguir o futuro, o tempo está em movimento, podendo ser qualquer um diante da vida. Com isso, todos seremos eternizados em lembranças e ao contar sobre o outro ou olhar o outro estaremos olhando a nós mesmos, assim como se assistirmos a esses filmes iremos captar o olhar de alguém sobre o outro, mas também captaremos o outro ao nosso olhar.

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Juventude à flor da pele diante do assédio [“Luna”, Cris Azzi, MG, 2018]

por Jacqueline Gama de Jesus

Descobrimento de si, sexualidade, identidade, juventude, diferenças econômicas, festas, depressão, felicidade, quebra de temporalidade. A câmera acompanha Luana explorando níveis altos e baixos, segue cada um de seus passos. O vídeo da webcam do notebook mostra a adolescente se despedindo da mãe, regressão temporal, o que aconteceu com Luana? O que vai acontecer com Luna? O filme é construído em cima de uma tensão ao mesmo tempo em que se faz sensível. A câmera epidérmica quase nos coloca diante das personagens, tocando em seus poros, desvendando o que há de mais íntimo em cada ser.

A narrativa ficcional é desenvolvida na história da personagem Luana, a qual tem um vídeo íntimo exposto nas redes sociais. A garota então é assediada tanto nas mídias da internet quanto no ambiente escolar. Essa temática se faz completamente necessária nesse universo de adolescência, principalmente de escolas particulares em que os homens se sentem no direito de ameaçar suas colegas, esse é um cenário constante na classe média brasileira que tem acesso a ambientes de festas, drogas, celulares de última geração e roupas de marca. O filme é extremamente oportuno no âmbito da violência sexual, psicológica e imagética, podendo servir como um alerta para os pais observarem a juventude tanto quanto uma catarse a quem vive ou viveu nesses locais. Entretanto, ele tem a possibilidade de vir a ser gatilho também, caso o espectador não o veja até o fim.

O filme trata do amor livre, mas até que ponto o amor livre não pode vir a ser assédio? Para além da violação de imagem, Luna (persona de Luana criada nas redes sociais) sofre algumas situações de assédio: de um colega que constantemente a persegue, do pai da garota por quem ela se apaixona, do amigo dessa garota e de um outro colega que a assedia pós a exposição das imagens. Apesar de não ser efetivado um estupro em nenhum dos casos, o filme mostra essas situações que são reais na vida das mulheres e que de fato começam desde a adolescência (as vezes até na infância). Mesmo sendo exposto de forma sutil em algumas cenas, a violência sexual acontece nas mais diversas esferas da vida de uma mulher. Com isso, é colocado em pauta o feminismo e o quanto ele pode salvar as mulheres.

As meninas da escola em que Luana estuda, inclusive ela, fazem parte de um coletivo feminista, criado por elas, em que performam em algumas cenas essa opressão. Na volta de Luana depois de um momento depressivo que é representado através de um lapso temporal em que os elementos oníricos, trazendo para a trama um realismo fantástico em que há uma  mistura da dança, da música e de seres mascarados, místicos, produto de uma alucinação da personagem ou simplesmente uma metáfora para a passagem de um momento desse tempo, a protagonista é acolhida pela suas colegas que a apoiam em um ato de resistência.

O filme também contém uma crítica as diferenças de classe social. Emília, amiga de Luana, por quem ela se apaixona, tem um poder aquisitivo muito mais alto que o dela e mesmo aparentando um aparência alternativa, cabelos descoloridos, um isolamento diante da maioria, ela não sofre bullying nem assédio na escola, provavelmente pela sua condição social. Ao contrário de Luana que mostra-se muito mais humilde que seus colegas, é entretida com a turma e sempre é alvo de perseguições. Portanto, o filme tenciona as questões de classe econômica e mostra o olhar daquele que não pertence a essa classe mesmo tendo oportunidade de acessar os mesmos locais que essas pessoas. A trama também é surpreendente porque em um primeiro momento a tendência é achar que as duas garotas irão sofrer bullying ou alguma violência devido a essa aproximação. Porém, o filme desenha um caminho completamente outro.

Apesar de “Luna” direcionar-se a um público branco, uma vez que a maioria das personagens o são, assim como a uma classe média ou média alta já que mostra espaços comuns como boates alternativas, em que a tinta neon e performance se engendram, aproximando-se um pouco do seriado Skins. Ele é completamente sensível, desde a fotografia que explora ângulos altos até uma câmara em que está completamente no chão. A paleta de cores e cenário, a porosidade e a quebra de linearidade do filme são pontos fortes, uma vez que para entender a história é necessário estar atento ao figurino que representam momentos diferentes da vida de Luna. Assistir a paixão que Luana começa a sentir pela sua amiga Emília e os gestos sutis de afeto e carinho entre as duas, ao mesmo tempo em que se evidencia a experiência de transcender e conhecer o corpo, assim como as experimentações da sexualidade, é catártico diante das imagens de celular e de conversas de redes sociais em que o filme mescla com uma câmara de alta qualidade. “Luna” é uma trama de resistência e sensibilidade no século XXI, desvelando subjetividades da juventude à flor da pele.

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[“Febre da selva, Spike Lee, EUA, 1991]

por Igor Yuri Algozino

Depois duma abertura em slow motion com animação de placas de trânsito que traz os créditos do filme sob uma trilha musical de Stevie Wonder, o bairro novaiorquino do Harlem aparece de maneira bucólica com as folhas das árvores sendo balançadas pelo vento. Posteriormente surge o casal Flipper (Wesley Snipes) e Drew (Lonette McKee) fazendo amor. Portanto este bucolismo da natureza mais este amor sexual desconstroem a imagem de um Harlem violento apresentada nos filmes blockbuster de ação.

Flipper é um arquiteto que trabalha num escritório gerenciado por dois homens brancos: Jerry (Tim Robbins) e Leslie (Brad Dourif). Flipper reclama com seus dois chefes por terem escolhido Angie Tucci para substituir temporariamente Terri, visto que Flipper pediu uma substituta afro-americana. Sagacidade expressiva do diretor Spike Lee em trabalhar o assunto, a luta do negro por espaços no mercado de trabalho, em que esta peleja dura até os dias atuais, e ainda existem indivíduos nonsenses na sociedade que afirmam que este tipo de revindicação é “mimimi”. Outra vivacidade evidenciada por Spike, é colocar o personagem negro Flipper como um indivíduo preparado, estudado, e competente no ramo da arquitetura, contrariando o senso comum leviano que enxerga o negro apenas capaz de ser operário.

Angie mora no bairro de Bensonhurst com seus dois irmãos e pai, e quando chega do trabalho cansada, ainda tem que cozinhar para três machões preguiçosos, e servir o jantar, e também tem que escutar seu irmão Jimmy reclamar da comida. Ponto positivo para Spike que conseguiu sintetizar muito bem nesta parte do filme os pilares que formam uma família patriarcal e machista.

Atraídos um pelo outro Flipper e Angie acabam se envolvendo, e o arquiteto acaba traindo sua mulher, e desabafa o problema do adultério com seu amigo Cyrus (Spike Lee). Mas Cyrus não segura o segredo e conta para sua esposa, que conta para a esposa de Flipper, que fica furiosa e expulsa-o de casa. Porém, Spike traz uma caso de adultério não para deixar a narrativa povoada por brigas e baixaria, e sim para mostrar as dificuldades que Angie e Flipper vão encontrar no relacionamento entre uma branca e um negro. O negros questionam porque Flipper está namorando uma branca, e o misógino pai de Angie dá uma surra nela por ela estar namorando um negro.

Flipper vai morar na casa do seus pais que tem o filho primogênito Gator (Samuel Jackson) viciado em drogas. Gator recebe o desprezo do pai, e sua mãe é explorada por ele quando este quer se drogar. A sua compulsão por crack é tão intensa que ele rouba a televisão dos seus pais para comprar tóxico, e seu irmão Flipper adentra numa cracolândia infernal para questionar Gator sobre o aparelho de TV. As cenas que mostram o problema do vício de Gate são ótimas como referência bibliográfica para um estudioso que se interessa pela temática dependência química.

O pai de Flipper é um religioso ultra conservador que recusa jantar com Flipper e Angie, afirmando que não come com uma prostituta adultera. Esta atitude do pai de Flipper pode conectar o espectador com a eleições do Brasil em 2018, na qual alguns eleitores dizem ser religiosos mas simultaneamente defendem a truculência policial e desprezo pelas minorias.

É importante lembrar da cena que Flipper e Angie estão brincando de boxe na rua quando, achando se tratar de um assalto, alguém chama a polícia, que aborda Flipper de forma violenta Flipper. Assim como no filme “Faça a Coisa Certa” Spike Lee nesta fita de 1991 denuncia a violência contra os negros nesta abordagem policial extremista ao personagem Flipper. É importante Spike Lee continuar “batendo nesta mesma tecla” para não deixar este tipo de injustiça ser omitida na sociedade.

No final do filme, após fazer amor com sua esposa Drew, a filha de Flipper pergunta para o pai se ele vai voltar a viver novamente com eles, e Flipper reponde que talvez no futuro. Assim Spike encerra bem esta fita permitindo que o espectador fabule se Flipper voltou ou não a viver com sua esposa e sua filha, agora cabe cada cinéfilo imaginar uma resposta.

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Criança aprende cedo a ter caráter, a distinguir sua classe… [“Onde dormem os sonhos”, Cecília Amado, BA, 2018]

por Isabel Santos

Desigualdade social é a diferença econômica que existe entre determinados grupos dentro de uma mesma sociedade. Essa definição, se expressada de maneira audiovisual, resultaria no filme “Onde Dormem os Sonhos”, de Cecília Amado. O longa, realizado durante três anos, mostra de forma documental o cotidiano de quatro crianças de classes sociais e vivências de mundo diferentes, que trazem alguns aspectos parecidos e conseguem relacionar-se.

As brincadeiras no dia a dia, escola e viagens internacionais são algumas das formas usadas como recursos narrativos para mostrar as diferenças entre realidades que determinam como essas crianças vivem e o quanto essa vivência pode ser difícil. Com diálogos e imagens muito bem relacionados, a partir de uma premissa lúdica, com uma inteligente montagem, o longa consegue falar de diversos assuntos sociais que são pertinentes no Brasil.

Dormindo no sofá de uma casa pequena, ou numa cama em uma casa quase destruída pela chuva – sendo o principal motivo para deixar um dos personagens doente -, ou num apartamento de classe média alta, os personagens desenrolam os seus sonhos, esperanças e realidade de vida. Da mãe sem dinheiro para o transporte para ver o filho criado pela avó; uma menina que vive com a avó e as tias, e às vezes vai brincar na casa de uma amiga que mora com os pais em um condomínio de classe média; e a menina que sonha em ser bailarina profissional e, para realizar esse sonho, foi morar com sua tia em troca de cuidar das filhas dela. Através do recurso de montagem paralela, Cecília convida a entrar no mundo dessas crianças e perceber seus contrastes, nos despertando misto de sensações e relações, que promovem uma imersão profunda.

Essas relações também estão presentes na música escrita em 2003, pelo cantor e compositor Sabotage, “Canão Foi Tão bom”. Em uma parte ele diz: “Lembrar das mina, mulher, vocês são lindas, voz periferia”. No filme essa voz está presente nas famílias de bairro periféricos, que são chefiadas por mulheres e não se têm a figura paterna, apesar de ser mostrada, em segundos, numa cena em que o pai está voltando do trabalho de manhã cedo. Ter famílias chefiadas por mulheres é algo muito comum nas periferias brasileiras e recentemente o vice-presidente do Brasil, General Mourão, afirmou em um evento, que famílias chefiadas por mulheres, e sem pai ou avô, é uma fábrica desajustados, algo pelo qual ele foi duramente criticado. Outra parte da letra da música do Sabotage que se relaciona com o longa é “Anda ló, vejo na maló, ó só, ainda mais pobre do que eu, ai, que dó”, tal pobreza é retratada em todo o longa, seja nas casas que os personagens moram, o que comem, brincam, estudam, nos remetendo a pensar que as vezes pensamos que a nossa situação é difícil, mas quando olhamos para a situação do nosso vizinho, a dele é bem pior.

As diferenças de classes é algo também presente no longa, especificamente na cena em que a personagem Sofia vai brincar com a amiga que mora em um condomínio fechado e fica perceptível o quanto a vivencias delas são contrastantes, enquanto uma está voltando da viagem que fez à Europa, a outra, estava em casa ajudando a avó a cuidar dos primos.

Com um longa realista,e, em alguns aspectos, atemporal, Cecília Machado leva o espectador para um momento de reflexão mostrando o quanto as diferenças sociais é um dos principais fatores que determina se os sonhos viram realidade.

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Batimento sensível [“La Bouche” (A Boca), Camilo Restrepo, França, 2017]

por Raquel Carvalho

Diante do atual cenário de feminicídio no Brasil, “La Bouche” vem para tratar do tema como uma das formas mais belas, fantásticas e simbólicas que a busca por justiça de um pai pela morte da filha poderia ser representada.

A partir da sensível arte da dança, começa com impacto e imersão “La Bouche”. Uma história regida por dança e música que passeia pelo fantástico e real sem quebrar a imersão proposta. É uma viagem sem volta que pulsa no corpo com as batidas percussivas dos instrumentos e envolve o espectador em uma busca por justiça e consolo junto ao pai que acaba de perder sua filha brutalmente assassinada pelo marido.

A imersão é total e os sentimentos compartilhados com o pai em luto e em busca por justiça vão ganhando força até o momento final.

A forma como a história vai sendo construída, é bela e fora do padrão, altamente dentro do campo do simbólico e poético, o autor constrói uma narrativa que não deixa dúvidas e as cantigas cantadas se entrelaçam perfeitamente como um fio condutor da história. Imagem e som estão o tempo todo conectados, permitindo que não haja choque e quebra na imersão.

O filme foge mais uma vez do padrão ao colocar na cena final o pai se encaminhando para o momento de vingança. A expectativa é quebrada quando nos é apresentado a arma que será usada nessa luta, sua arma é um atabaque, e sua forma de lutar é através da arte de tocar e a cada batida sua expressão nos é colocada de forma visceral e sua angústia é visivelmente posta para fora naquele momento.

“La Bouche” finaliza com a mesma sequência inicial do filme, a filha assassinada dança e o seu corpo, que no começo nos remetia a impulso, agora recebe um outro significado: encontro.

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Quem são nossos heróis se não nós mesmos? [“Mormaço”, Marina Meliande, 2018]

por Letícia Batista

Piscina. Um lindo prédio perto da praia no Rio de Janeiro. Prédio com elevadores e porteiros. Vizinhos cordiais. Apartamento espaçoso. Casa bem mobiliada. Escritório com computador caro e muitas plantas. Sair para correr em um parque próximo de casa. Voltar do trabalho e dar um mergulho no mar. Essas são as características de um classe média no Rio de Janeiro e principalmente da nossa personagem.

Estamos nas vésperas da Olimpíadas de 2016 onde o Rio está sendo cada vez mais vendido e sendo escondido para os turistas. “Mormaço” se inicia com a apresentação dos nossos personagens e onde eles estão inseridos. A personagem que vamos acompanhar é Ana, uma advogada. Voltando para casa, ela está perto de algum prédio que foi demolido, vemos muita fumaça que logo chega a um condomínio, onde há uma família se divertindo na piscina. Estamos agora localizados no espaço e tempo da personagem.

Ana já nos é apresentada com um semblante cansado, a heroína que estamos vendo está exausta, sua jornada de trabalho e seus problemas pessoais a deixam assim. Nos vemos agora em uma reunião de condomínio, onde há o embate: precisam sair do prédio, a especulação imobiliária também chega na classe média. O prédio onde eles moram vai virar um Hotel para os turistas que estão para chegar. Aqui também conhecemos nosso outro herói, Pedro. Ele trabalha para ver os apartamentos e como eles estão, ele será vizinho de Ana durante 3 semanas. Aos poucos vamos sentir uma tensão entre eles, sabemos logo de cara que ali haverá um romance, diria até que desnecessário, não vejo como eles juntos acrescentam na narrativa, só se olharmos de um ponto que a mocinha sempre precisa de um companheiro.

Aos poucos, conseguimos perceber do que Ana de fato faz. Ela é advogada que trabalha para uma comunidade no Rio de Janeiro, que de uma forma muito diferente, também precisam sair daquele lugar. A reforma da cidade para as Olimpíadas dão tempo para a retirada e conversam com a classe média, mas para a periferia, não há conversa e muito menos tempo. Aqui percebemos porque nossa heroína está cansada e nervosa. Ela está em duas guerras muito parecidas, mas onde os lados são totalmente diferentes. O ponto central da narrativa que é esse problema que a periferia e a classe média sofrem de formas totalmente diferentes, é interessante e um bom ponto para reflexões, mas dentro da história que a diretora Marina Meliande construiu, há um vazio de uma crítica de fato sobre essa situação.

Em “Mormaço” nossos protagonistas é a classe média-rica, a periferia aqui não passa de mero coadjuvante, talvez menos que isso. Na verdade, sinto que eles só estão ali para reforçar um heroísmo dos protagonistas. Conseguimos ver o problema da comunidade, a conversa que rola entre a advogada e os moradores. O medo, a vontade de ficar. A resistência que há ali é potente. É nisto que a narrativa deveria ter mergulhado, trazer esse protagonismo para essas pessoas. Toda vez que Ana aparece na comunidade, sabemos que há um morador a menos que aceitou a negociação da prefeitura por medo. Mas em nenhum momento vemos a cara dessas pessoas, não as conhecemos, não sabemos a forma que elas saíram e com o que elas saíram. Cada vez mais ali tem medo e a resistência só é mostrada quando se relata a luta da classe média em um condomínio. Ouso dizer que mesmo os personagens que não aparecem, me mostram mais carisma que nossa personagem principal.

Cada vez mais na narrativa nossa personagem está cansada e vai aparecendo manchas que vão se tornando crateras, parece que nossa heroína está virando pedra. A cada luta dela dentro do seu prédio junto com sua vizinha que não quer sair daquele lugar e com seu trabalho na comunidade, as manchas vão se espalhando. O romance com Pedro, alguém que está ali para “despejá-la” é algo que cada vez mais a incomoda. Mas aqui há outro ponto interessante, os ricos são tratados literalmente com o amor e a preocupação, a comunidade, como a personagem Rosa diz, são torturados psicologicamente ao acordar e ao dormir.

A história vai se intensificando e cada vez mais a comunidade é destruída. Vizinhos de Ana vão saindo do prédio. Não há mais um prédio limpo como inicialmente, já não se tem tantos porteiros, a piscina já é impossível de se nadar. O prédio vai se tornando cada vez mais abandonado e Ana vai se tornando cada vez mais pedra e gradualmente com mais medo do que está acontecendo com ela, medo talvez até da morte. Consigo detalhar muito bem todas as mudanças que ocorreram no prédio da heroína e com ela mesma, mas não consigo fazer o mesmo sobre a comunidade que está diminuindo. Até o medo que antes conseguimos ver naquele lugar, foi transferido com o medo da morte de Ana.

Ana já não sai de casa, a doença desconhecida está cada vez mais avançada, junto com a loucura que está o Rio de Janeiro. Personagens da comunidade foram despejados oficialmente. Corta para Ana deitada na cama já com quase o corpo empedrado. E é aqui o ápice dos nossos heróis. Sem lugar para ir e com um prédio completamente abandonado, a comunidade que sobrou ocupa o prédio. Apesar de haver muitas pessoas no lugar ocupado que acabaram de perder a casa e tudo que se construiu, a narrativa nos leva a se preocupar novamente com Ana. O quarto de Ana está parecido com o corpo dela, se tornando pedra e de uma certa forma, mofando. Rapidamente, os policiais chegam na nova ocupação e entram à força.

Todos da comunidade estão na laje. Pedro, o herói que também despeja pessoas, enfrenta os policiais para ganhar tempo, ele só leva um empurrão e a guerra ali dentro começa. Os policiais acham onde estão as pessoas da comunidade e sem ao menos pensar, atira, empurra e bate. Há corpos periféricos sangrando no chão, há negros apanhando. Me pergunto onde está a heroína que sempre lutou tanto por eles? Ela agora se transformou no prédio. O não querer sair desse lugar a fez se transformar nele. Enquanto há corpos caídos, corpos inclusives que sempre caem, a heroína classe média não morre, mas se torna um lugar, quase como uma resistência poética.

No momento político que estamos, onde sabemos que haverá luta, onde cabe esse discurso? Será que é para nos lembrar mais uma vez que as minorias sempre estão nas linhas de frente e que a resistência dos privilegiados é diferente? Que a importância de um corpo branco caído vai ser mais valorizado do que os outros? A fragilidade desse discurso me incomoda, para mim não passa de uma reprodução de privilégios que foi enfrentada há dois anos atrás e que pode ser agora em pleno 2018. No final das contas sabemos muito bem quem leva vantagem com o discurso de empatia, onde seus problemas não são mimimis. Sabemos muito bem quem são ao assistir “Mormaço”.

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